sexta-feira, 16 de abril de 2010

Estigmação

As folhas secas ainda estão pelo jardim. A luz do sol bate, raiando as primeiras horas da manhã de um outono gelado, mas nem por isso frio. O alaranjado da flor parece dizer “hei, outro dia está ai”.
As ruas ainda desertas. O sol clareando o pouco que se vê. As luzes ainda acesas mostram que o galo ainda não conseguiu cantar.
Tudo parece ser mais difícil. Da até “dó de mim”, como uma amiga me escreveu uma vez.
Ao caminhar, vejo minha respiração saindo de meu rosto. Está gelado, mas não frio.
A epístola na mão guarda uma grande lembrança, que faz questão de não esquecer.
Saudade...Ah, essa palavra poderosa.
Gosta de sentir, de relembrar de um tempo que não volta mais, de uma pessoa que no volta mais. Todos os momentos estão guardados espistolarmente. Todas as lembranças.
O último encontro foi aos 14 anos... Quanto tempo. Quase o dobro de anos.
Aquele aceno de “Adeus” fica marcado na memória. O presente, tão simples para alguns e tão sentimental para outros, ainda guarda com carinho. Apenas uma revista, com uma reportagem que tanto gostava de ler.
O cartão de despedida, o cinema do último dia...quantos anos, quanto tempo.
Hoje os caminhos mudaram. Os milhares de quilômetros de distância nunca os separaram. Mas “infelizmente nem tudo é, exatamente como a gente quer”.
Hoje se descobriram água e óleo. Mas a vontade é de se tornarem margarina, que é a única forma que ambos se juntam.
Os telefonemas não mais existem. Mesmo com toda a tecnologia, ainda preferem as cartas. Aquela ansiedade de chegar às novas escritas, as novas fotos.
Nenhum aniversário havia sido esquecido, porém algo deveria ser feito.
Teve dois pensamentos. Largar tudo e encontra-la ou mata-la de vez. Preferiu a segunda opção.
Calmamente, foi destruindo todas as memórias. O fogo que ardia na fogueira queimava todas as cartas e fotos. Em suma, a vontade era de se atirar na fogueira para salvar tudo, mas sua mente não permitia tal façanha.
Ao queimar as memórias, decidiu queimar a fonte dela.
Pegou a estrada e viajou mais de dois dias até chegar ao encontro.
Ao chegar, se olharam. Ela abriu um sorriso sem graça. Sua vontade era de abraçá-la, beija-la e nunca mais largar. Mas ele tinha um motivo naquela visita.
Muitos anos sem se ver, vidas opostas, tempo passado. As lembranças vieram à cabeça.
Engatilhou. Atirou. A bala entrou certeira na cabeça, deixando uma poça de sangue no chão.
Pessoas que passavam ao lado gritavam em desespero. Um maluco com uma arma, atirando assim, no meio da rua.
Ele ficou com os olhos abertos, estáticos. A frieza de seu olhar demonstrava que, para ele a coisa certa havia sido feita.
Curiosos o chamaram de drogado, maluco. E ele apenas queria acabar com lembranças que atormentavam a sua vida.
Mas ao acabar com essa lembrança, acabou comum passado que não voltará mais. Preso a esse passado, o tiro emsua cabeça foi a sua única saída.
Ela não entendeu muito bem o fato de ele ter viajado tanto tempo para se matar na sua frente. Ao ver a poça de sangue, fechou os olhos e caiu aos prantos.
Suas lágrimas pareciam a pimenta mais ardida que um dia provara. O céu, no memso instante, ficou negro. A vida parecia ter pregado a peça mais semgraça de toda a história.
Percebeu um papel em seu bolso. Relutou pr mover um corpo, com os olhos estáticos no chão. Ao pegr o papel, um bilhete.
“Natasha, venho por esse meio acabar com a memória que mais atormenta a minha vida. Você entrou e transformou minha vida. Do escuro conheci o claro. O que antes era preto e branco havia cores. O céu fundia-se com o mar, e os passaram eram os maestros de minha vida. Agora, preciso acabar com isso, pois não apenas a memória ficou, mas a dor de não te-la comigo. E como todo amor é egoista, resolvi marcar sua vida, de uma forma um pouco mais diferente que você marcou a minha”.

2 comentários:

Rose Dayanne disse...

Intenso!!

maria cristina disse...

gostei do conto....
acho que nunca tinha lido texto seu de ficção....beijo
escreva mais


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