sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

DO EGITO À MINHA CIDADE: QUANDO OS INDIVÍDUOS OPTAM PELA CIDADANIA E PELA CONSCIÊNCIA

Alysson Luiz Freitas de Jesus


Esse início de 2011 assiste a uma pequena amostra da capacidade de organização da sociedade diante
de governos opressores e autoritários. A situação do Egito tem sido um bom lócus para a análise da capacidade do
homem se organizar e lutar, como o foi para outras nações nos séculos XVIII, XIX e XX. Revoluções permitiram
ao homem avançar diante da tão sonhada liberdade, contra a opressão dos regimes absolutistas, e fizeram da
França, da Inglaterra e dos Estados Unidos os grandes exemplos de nações modernas, abrindo espaço para que as
mesmas se transformassem nas potências que hoje são. O Egito procura o seu caminho. A minha cidade e o meu
povo, também.
Depois de semanas ouvindo os noticiários sobre a situação do Egito e, sobretudo, depois de pesquisar
um pouco mais sobre o assunto, pude perceber que há um pouco do Egito em muitos de nós, em muitas micro-
realidades espalhadas por aí. Explico. Sou cidadão de Montes Claros, norte de Minas Gerais, e sei bem o estrago
que pode provocar um governo fraco, incompetente e irresponsável, por meio de uma administração inconseqüente,
voltada para interesses pessoais. Existem inúmeras semelhanças entre o universo de poder do senhor Hosni
Mubarak (presidente do Egito) e o senhor Luiz Tadeu Leite, o homem que “comanda” a minha cidade... As
semelhanças saltam aos meus olhos, e espero dividi-las um pouco.
O movimento popular no Egito se dirigira ao governo de Mubarak, no poder há 30 anos. Com eleições
previstas para setembro desse ano, os especialistas na região apontam que o mesmo buscava emplacar o seu filho,
Gamal Mubarak, para sucessor. 30 anos não parecem suficientes para a família Mubarak... Pobre Egito. Homens
procurando o poder eterno.
Pobre Montes Claros... Aqui, na minha cidade, a família Leite também parece entusiasmada com a
permanência eterna no poder. Por aqui, escritores “independentes”, de jornais do próprio prefeito, dizem que o
mesmo foi o único homem “ungido” pelo voto popular três vezes, escolhido democraticamente pelo poder do
voto. Tal como lá, aqui também se percebe a olho nu a intenção do pai Tadeu em emplacar seu bibelô na política,
o pequeno Tadeuzinho (nome carregado de uma originalidade ímpar...). Seria o pobre menino preparado para
o futuro que o espera? Aliás, farei a pergunta certa e manterei a minha ironia: E isso importa?! Afinal, vivemos
em uma democracia mesmo, onde o poder do dinheiro constrói imagens de pessoas sem preparo e sem nenhuma
condição de exercer o poder. Talvez o pequeno Mubarak e o jovem Tadeuzinho até estejam por aí, bebendo em
alguma boate e se deliciando com o resultado do paternalismo... Nunca se sabe.
Voltando às analogias, no Egito, o Parlamento é dominado pelo partido do presidente Mubarak, e
esteve durante todos esses 23 anos a serviço do poderoso presidente, que, por sua vez, também comanda as Forças
Armadas. Como as ditaduras são impressionantes. Dizem que na democracia isso não é possível... Será?
Aqui, o senhor ilustre e poderoso prefeito também exerce os seus poderes. Os vereadores, homens
escolhidos pelo povo, para representar o povo, não passam de um grupo organizado a serviço do prefeito, às vezes
aprovando projetos para o poderoso prefeito às altas horas da noite. Projetos – baseados na democracia – que
passam com uma facilidade enorme, liberando inclusive verbas espetaculares para sustentar-se um time de vôlei,
que, diga-se de passagem, foi feito para o próprio filho, como mecanismo da exposição pública da sua imagem. Êta
democracia sô! Se Mubarak estivesse por aqui, na Câmara Municipal de Montes Claros, ia fazer um estrago!
Ah, isso sem dizer a imprensa e a comunicação. Lá, no Egito, quando o negócio aperta – como tem
sido nessas últimas semanas – a intimidação e a violência se organizam. Repressões a jornalistas e órgãos da
imprensa, proibição do funcionamento da Internet, quebra de sinal de determinadas operadoras de celulares e outras
coisas mais. Ações tipicamente modeladas por regimes autoritários ou totalitários. Que bom que vivemos em uma
democracia, hein?! Bem, você já deve ter notado a intenção da minha ironia...
Aqui, como lá, quando o negócio aperta, o nosso “Mubarak do sertão”, o homem ungido pelo poder
três vezes, utiliza dos seus mais fortes mecanismos de persuasão – já que na democracia, mesmo que o queira,
o governo tem que, no mínimo, tomar muito cuidado com a ação repressiva. Por aqui, os jornais e órgãos de
comunicação que o prefeito controla são usados para desmerecer os interesses populares e os anseios do povo.
Quando o negócio aperta mesmo, lá vai o homem chorar, se dizer perseguido, justamente por ser do povo, humilde
como o povo, com casas em Miami, passando férias nos Estados Unidos ou vivendo das inúmeras posses que
conseguiu nesses anos em que representou o seu povo, humilde como ele. As famosas fortunas inexplicáveis, que
um simples texto, por mais detalhista que seja, jamais conseguirá explicar. Uma democracia a serviço daqueles que
têm o poder financeiro. São as confusões entre democracia e autoritarismo, que fazem de Hosni Mubarak e Luiz Tadeu Leite tão próximos, co-irmãos que nasceram para sugar a alma do seu próprio povo.
Mas o texto em questão tem um tom otimista, por mais que não pareça. Como eu disse no título acima,
em alguns momentos os indivíduos optam pela cidadania e pela consciência. O povo do Egito se cansou. Depois
de décadas de um governo incompetente, ditatorial, sem dedicação alguma às causas sociais, o povo se cansou.
Os egípcios se queixam dos altos índices de desemprego, da corrupção e do autoritarismo, da violência policial,
das leis absurdas do regime, da falta de moradia e das más condições de vida. O roteiro básico. Após 18 dias
de levante, Mubarak deixa o seu cargo. Sua cadeirinha particular que cultivou por “pequenos” 30 anos... Pobre
Mubarak... Sem o poder depois de 30 anos deitando raízes em seu país. Torçamos para o Egito, para que o povo
saiba escolher bem o seu caminho no futuro, e que o pequeno Mubarak não seja a perpetuação do pai ditador que,
enfim, sai do cargo.
Ah, e em Montes Claros, na minha cidade?... Bem, enfim, depois de um bom tempo e de muitas e
muitas razões dadas pela péssima administração do senhor Tadeu, o povo parece ter se cansado – ou pelo menos
uma parcela desse povo. Nos últimos dias, um grupo de pessoas dispostas a repensar o nosso presente e o nosso
futuro saíram às ruas. Para mim, um historiador consciente e cidadão preocupado, devo dizer, é motivo de orgulho.
Perceber que em Montes Claros também encontramos indivíduos optando pela cidadania e pela consciência é
motivo de honra.
Como lá no Egito, aqui acumulamos problemas de má gestão e de caráter, que o prefeito parece se
preocupar muito pouco. Postos de saúde abandonados, cidade com a sua estrutura física caótica, e bairros e mais
bairros tratados como um submundo, abandonando os montesclarenses à sua própria sorte. Esse é o nosso “estado
egípcio”! Sim, Tadeu, nós cansamos!!!
Depois de longos meses falando para o meu povo, silenciosamente, por meio de um simples e inofensivo
blog, pude ver alguns dos meus conterrâneos se indignarem. Alguns desses, meus alunos ou ex-alunos, estão
provando que jovens e adultos, independente da sua condição social ou econômica, são homens dignos e corajosos
para mudar o caos em que vivemos. Sim, Tadeu, nós cansamos!!! Assim como nossos irmãos lá no Egito. Se eu
fosse você, ligava para o Mubarak e perguntava para ele a “receita” para ficar três décadas no poder, já que o seu
poder pessoal tem prazo de validade apenas para 2012.
O futuro nos apresentará alguns dos efeitos práticos dessas manifestações sociais que se organizaram
na minha cidade, assim como esse mesmo futuro apontará os caminhos do Egito. Entretanto, mesmo diante de
um futuro que ainda nos espera, uma coisa é certa: já somos vitoriosos. Já vencemos, pois mostramos que alguns
podem iniciar algo grandioso para muitos, beneficiando todo um povo. E isso, essa verdade, ninguém pode retirar
daqueles que saíram das suas casas nesses últimos dias para mostrar que estamos vivos e somos humanos, e que,
em última instância, queremos apenas respeito.


“A gente quer inteiro, e não pela metade.” Titãs.



Alysson Luiz Freitas de Jesus é professor do Departamento de História da Unimontes e da Rede Privada de
Ensino em Montes Claros – MG.
Doutorando em História Social pela Universidade de São Paulo – USP, publicou o livro “No sertão das Minas”,
discutindo a sociedade escravista e política do Norte de Minas no século XIX.
Recentemente, publicou o livro “1808-2009: Interseções”, pela Editora Annablume – SP, onde analisa eventos
da atual história política e social brasileira sob a ótica do humor e da análise crítica e engajada dos fatos.

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