terça-feira, 10 de janeiro de 2012

A PM paulista sabe lidar com seres humanos?

 O Esquerdopata 


Parecia piada pronta. Estudante, negro, espancado por um policial militar dentro da USP? Tudo isso em vídeo?

Ou é piada ou é boato.

Nem o mais troglodita dos carrascos seria capaz de assinar o recibo desta maneira.

Policial pode até ser rígido, mas não é burro.

“Querem fumar maconha sem ser incomodados”.

Do governador ao quatrocentão que nunca pisou na USP, todos estavam crentes de que, com a PM no campus, a segurança e a civilidade estariam instauradas de vez.

O resto era conversa, papo de intelectual.

Todo mundo sabe que polícia não agride, polícia protege.

Os argumentos em torno da ordem e da legalidade estavam tão consolidados que soaria como escárnio voltar à discussão a essa altura do campeonato: a PM sabe lidar com estudantes?

A resposta durou 1 minuto e 39 segundos, e é mais representativa que todos os calhamaços já publicados sobre o assunto. E levou a discussão para outro patamar: a polícia paulista sabe lidar com seres humanos?

Em 1 minuto e 39 segundos a resposta se torna evidente: no vídeo (clique aqui para ver), um sargento, identificado como André Ferreira, avisa, educadamente, que o prédio sem uso há anos, ocupado pelos estudantes, precisa ser liberado. Os estudantes se negam a deixar o prédio. E questionam os motivos da ação (ao que parece, não está proibido ainda, num espaço estudantil, questionar determinada situação, ainda que o interlocutor seja um policial, um padre ou um professor).

A conversa é tensa, mas tudo parece estar sob controle. “Não gosto de você, e você não gosta de mim”. Ao que consta, num ambiente universitário, ninguém é obrigado a gostar de ninguém.

Até que um negro, o estudante de Ciências da Natureza Nicolas Barreto, entrou na conversa, da qual não foi chamado – como não foi chamado para aquela universidade, se dependesse de quem a financia.

E se tornou, naquele instante, a expressão mais exata da violência e do preconceito que a inteligência brasileira supunha enterrados.

O peso da mão policial é exatamente o peso de anos, séculos de rejeição ao acesso de negros a antigos círculos restritos. Como a universidade.

“Negro numa universidade? Não pode ser aluno. Se for, é baderneiro. Se apanhou, é bem feito. Se não amanhã qualquer herdeiro da escravidão vai começar a dizer ao Estado o que deve ser feito”.

A reação policial, nesse contexto, é quase profilática.

Porque o sargento escalado para a agir naquele espaço é o Estado presente, o detentor do monopólio da violência autorizado a agir com os estudantes exatamente como age com o cidadão comum. E hoje a polícia militar, acusada tantas vezes de truculência, mostrou às câmeras o que sabe fazer de melhor, o que faz há anos nas casas, nas favelas, nas ruas – com ou sem mandado, com ou sem força excessiva.

O vídeo mostrou que o baderneiro, na verdade, vestia farda, e não chilenos. E perdia a razão, agindo como marginal. Mudou de lado?

Horas depois, foi anunciado o seu afastamento do meliante (ops, policial), junto com um comparsa (ops, colega). Mas a questão está em aberto. Só mudou de patamar. Vale insistir “A PM paulista sabe lidar com seres humanos?”

Parte das respostas pode estar incrustrada sob o velho argumento: foi caso isolado.

Não foi. A agressão ao estudante da USP, assim como as agressões diárias sofridas por quem não tem sequer carteira de estudante para se defender de bordoadas, é a crônica de uma guerra anunciada. A fórmula? Basta colocar policiais armados querendo mostrar serviço numa área pacificada.

O sargento Ferreira tinha autorização para cumprir sua função. É em agentes públicos como o sargento Ferreira (o mesmo sargento que estranha ao ver um negro se apresentar como estudante) que o governo do estado dá a incumbência de levar segurança e civilidade para as ruas e, agora, para o campus.  Ele era o braço autorizado do estado para atuar naquele instante. Para isso foi treinado e orientado. E algo que militar sabe fazer é cumprir ordem e obedecer.

A manifestação gratuita, e gravada, de truculência e a covardia é um direito outorgado ao sargento Ferreira ao longo de mais de 181 anos de corporação que hoje envergonha seu próprio estado.

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