terça-feira, 24 de julho de 2012

Minha visita à Fundação Casa


Neste domingo, o programa da Globo Fantástico apresentou uma reportagem sobre como os jovens infratores são tratados nas unidades que, na teoria, deveriam servir para resocializar menores à sociedade.
Enfim, em 2010 fiz duas matérias na Fundação Casa de Marília, interior de São Paulo. Uma no Correio Mariliense (clique aqui para ler) e outra no Diário de Marília, mas a  matéria acabou saindo apenas no impresso.

Uma observação que não pode passar em branco. A matéria que eu escrevi foi o que a diretora da casa pagou para sair, não pude aprofundar na minha visita, porém nada foi negada de informação.

Em minha visita, agendada com mais de duas semanas de antecedência, pude ver como foram forjados o bem-estar na unidade. Claro, estamos falando de menores infratores, a maioria deles no local por conta de homicídio e todo cuidado é pouco com uma pessoa que cometeu um assassinato. Mas vamos ao relato.

Ao entrar, tive que tirar tudo do bolso,não podia entrar com celular nem com carteira. Ao entrar, todos os internos estavam em aula. Sim, naquela unidade tinha aula todos os dias, os alunos estavam em processo de alfabetização ou completando seus estudos, tudo dentro da unidade.

Percebi que todos, ao conversarem comigo, baixavam a cabeça. Perguntei a um interno o porquê disso, ele me falou que era respeito. Achei estranho , mas continuei a entrevista não apenas com o menor, mas também com profissionais do local.                  

A unidade parecia ser um paraíso. Hortas, esportes, aulas de arte, escolarização dos infratores. Tudo como no papel deveria ser feito. Mas ai ,vem o off. – off é quando uma informação chega ao jornalista, mas o mesmo não pode publicá-la por não ter provas ou para não incriminar alguém.

Um menor me falou que logo que eles chegam a Fundação Casa, uma série de humilhações os menores são submetidos. Nelas eles precisam ficar sempre com a cabeça baixa, para que assim não possam  reconhecer o agressor. “É muito ruim, pois o quarto é escuro, nóis ficava(sic) pelado e apanhando, isso por uns dois ou três dias”, confessou o menor. “Eu tive sorte de ter apanhado pouco, pois cheguei em um final de semana e tinha pouca gente trabalhando, mas sei de gente que ficou muito tempo no quartinho- local das surras.

Claro que a Rede Globo não iria mostrar isso,afinal o PSDB tem como candidato José Serra, ex-governador, ex- tudo que ele pôde abandonar para ir para outro cargo.

Enfim, na sala de aula, uma parte irreverente. A professora queria impressionar nós, jornalistas, mostrando como os alunos estavam aprendendoa ler e escrever.

- Vamos lá, vamos mosttrar que agora chegamos a letra “F”. Quem pode me dizer uma palavra com a letra F?

Nisso,um dos menores:

- FARINHA

A professora olhou com ar reprovatório, quando outro aluno citou família.

Ao ir embora, a diretora local pediu para ver a matéria antes. Falei para ela entrar em contato com meu editor, pois era para ele quem eu trabalhava. Ao chegar ele me pediu apenas para colocar a visita e a versão oficial. Claro, eu também não tinha nada além da versão oficial, afinal fui lá para escrever pela propaganda.

Não vi nada demais,alias pelo contrário, vi uma fundação muito bem estruturada e deu até vontade de ficar lá, dada as condições que eu morava na época – dividia um apto com mais três pessoas, e a confusão era diária.  Mas a propaganda é a alma do negócio. Vamos a minha segunda visita.

Na segunda vez que fui à matéria era sobre os jovens que iriam votar nas eleições. Em 2010, urnas iriam aos presídios, inclusive na Fundação Casa para que internos pudessem votar para presidente,Deputados e Senador. Certo, convocaram dois jovens para falar sobre votar dentro da unidade.

Eis que, em um determinado momento,um dos jovens fala que “Votar é bom,mas seria melhor a gente livre dos choques”. Atiçando minha curiosidade, o policial que nos acompanhava informou que a entrevista havia se encerrado e retirou, na mesma hora, os menores.

Depois descobri que choques quer dizer obrigação. Ou seja, muitos menores ali, na hora de votar, eram obrigados. Isso claro, é uma dedução minha, não consegui pegar mais informação sobre isso. O que me intrigou é o porquê do policial tirar os menores no mesmo instante que citaram choque.


O que eu vi foi uma unidade que tenta recuperar jovens, mas que com o método de violência, intimidação, fica um pouco difícil. O Estado, ao invés de enxergar o menor infrator como uma pessoa a ser recuperada, trata-os como criminosos, bandidos de alto escalão, fazendo-os sair das unidades pior do que chegaram. E em sua maioria-salvo jovens que realmente tenham algum surto psicótico - têm sim sua "salvação", ou recuperação, como quiserem chamar. 

Bom, agora outro caso. Uma amiga minha,Cristiane, mora bem em frente da antiga unidade da Febem do Tatuapé. Lá,ela ouvia choros, ouvia espancamentos e tudo mais. Isso a Globo não mostrou.

Não falo mais detalhes por que não vi nada além.Ma sei que a Globo omitiu as unidades de São Paulo para proteger o queridinho José Serra, que tentará novamente ser prefeito da capital paulista. Essa proteção a gente sabe que vai rolar mesmo. 

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