quarta-feira, 19 de setembro de 2012

A cobertura das eleições e o direito a informação


Estamos vivendo uma época conturbada na questão do direito a informação no Brasil. Fomos reféns, durante boas décadas, de uma mídia que trabalhava favoravelmente a ditadura militar. Não ficarei aqui citando nomes, mas qualquer pessoa que se informe além da mídia tradicional sabe muito bem do que estou citando agora.

A constituição garante o acesso à informação. O problema é que no Brasil, a mídia acostumou-se em ser a única fonte da mesma. E agora a internet incomoda. Incomoda pelo simples fato de que as pessoas já não dão mais moral para o que a imprensa diz. Mas isso, ao contrário que pensam os grandes diretores, não é culpa da internet. É culpa da própria mídia. Mas quem trabalha com a informação precisa se preocupar.
Com esse incômodo, a mídia resolveu apelar para outro lado. Sempre aliado aos grandes caciques da direita, ela tenta fazer e desmanchar imagens já desgastadas, e atacam o bolso e a honra de quem se opõe a ela.

No Paraná, tivemos o caso do Blog do Tarso, gerenciado por Tarso Cabral Violin, em que uma simples enquete o rendeu uma multa de R$106 mil reais. Claro, ele só levou essa multa porque quem entrou com a ação contra ele tem uma influência muito forte do judiciário. Prefeitos e vereadores levam multa de R$5 mil( mesmo dispondo de milhões em caixa de campanha) enquanto um blogueiro leva uma multa de três dígitos. Mas antes fosse apenas o bolso.

Resumirei aqui um caso de absoluto desrespeito com quem trabalha com a informação. Na capital mineira, Belo Horizonte, o atual prefeito Márcio Lacerda, candidato a reeleição, tem aprontado as suas. Apadrinhado por Aécio Neves, Lacerda deita e goza com os benefícios de ter um padrinho forte que domina a informação mineira. Com trânsito livre no jornal Estado de Minas(onde Andrea Neves, irmã de Aécio, é praticamente a diretora de conteúdo), as informações dadas aos mineiras sofrem uma grande...distorção, digamos assim.

No último dia 10 de setembro, a equipe do portal Minas Livre recebeu uma ligação informando que havia um tumulto na porta de um dos comitês de Márcio Lacerda. O tumulto era pelo não pagamento de panfleteiros e bandereiros da campanha (os que trabalham nas ruas debaixo de sol para ganhar pouquíssimo). Os trabalhadores estavam exigindo o pagamento dos dias trabalhados, e iniciou um pequeno tumulto.

A equipe foi até a porta do comitê para poder cobrir a manifestação. Júlio César Silva, diretor do portal, conta que logo ao chegar, foram avisados que não poderiam fazer imagens, mesmo estando na rua, um local público. Então, sob ameaças e intimidações, as pessoas começaram a entrar para receber, enquanto a equipe fazia seu trabalho na porta, tendo a cooperação de muitos dos trabalhadores. Nisso, cercados por seguranças, o editor levou uma gravata e a cinegrafista teve sua câmera roubada pelos seguranças.

Após tomarem a câmera, os seguranças entraram no comitê. Apenas com a chegada da polícia é que os comunicadores puderam entrar para tentar recuperar a câmera, roubada por um dos seguranças da equipe de Márcio Lacerda. “A polícia demorou demais pra chegar, mais de uma hora. As próprias pessoas que estavam lá, protestando pelo não pagamento, estavam nos ajudando a identificar os agressores. Teve um momento que eles sumiram lá dentro, e tive que entrar nas salas. As pessoas lá fora entregaram um segurança também, dizendo que entrou numa sala pra trocar de camiseta e assim não ser identificado”, conta Júlio.

Segundo Júlio, a agressão não foi o principal problema na situação. “Agressão, sei lá, o corpo melhora, mas o problema foi o roubo da câmera, um instrumento de trabalho que estava lá para registrar os fatos. É uma agressão não ao jornalista Júlio, mas é uma agressão a uma sociedade em si”.

O que mais impressiona é que, segundo relato do diretor do portal Minas Livre, nenhuma imprensa foi lá para cobrir. Apenas um jornal deu uma pequena nota falando do ocorrido, porém ponderando no ataque a liberdade de imprensa. Mas nós sabemos que, se fosse no comitê do Patrus Ananias (candidato do PT em Belo Horizonte)e o agredido fosse alguém do jornal O Estado de Minas, além de capa, seria motivo para quererem impugnar a candidatura do Ptista.

Nós, que trabalhamos com a informação alternativa, estamos em uma sinuca. Não temos apoio de segurança( que está junto aos governantes), não temos apoio judicial, e podem acreditar, não temos apoio de governo algum, mesmo muitos dizendo o contrário.

Hoje a informação verdadeira está na berlinda. As pessoas dizem que a imprensa é mentirosa, mas as mesmas pessoas ecoam o que a imprensa publica. Manipulações e noticias tendenciosas, só porque a linha editorial é partidária, deixa quem não tem acesso à internet com a mente poluída com as besteiras pela imprensa publicada.

Nessas eleições,estamos tendo as maiores provas de que os políticos das alas mais tradicionais ainda estão com a imprensa ao seu lado.E eles utilizam a mesma para atacar quem não concorda com seus pensamentos. E atacar, para quem trabalha com a mídia alternativa, é o simples fato de mexer com o bolso das pessoas, afinal não são empresas, são pessoas físicas, onde a receita é fruto de trabalho paralelo a essa função de informar por uma outra visão.


Tivemos um grande exemplo disso em São Paulo e Minas Gerais, onde o PSDB da campanha de José Serra tentou censurar os blogs que não falavam favoravelmente ao candidato tucano. Em Contagem, cidade da região metropolitana de Belo Horizonte, o candidato Ademir Lucas, também do PSDB, entrou na justiça(e ganhou) direito de resposta de um cyberativista por conta de “propaganda negativa”. Se fosse positiva ele nunca ria reclamar,não é?

No encontro Nacional de blogueiros, que ocorreu em Salvador em Maio deste ano, Paulo Henrique Amorim citou algo que devemos refletir e muito bem, em especial nessas eleições sobre a liberdade de informação. “Nada além da constituição queremos. Nada além.”


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